🔭Por que os adivinhos financeiros confundem índices com previsão do tempo — e como trabalhar com cenários em vez de profecias
Por que os adivinhos financeiros confundem índices com previsão do tempo — e como trabalhar com cenários em vez de profecias
É uma terça-feira à noite, um canal de economia está no ar e o estrategista-chefe de um grande banco declara, com a serenidade de um meteorologista profissional: "O índice vai terminar o ano em 5 800 pontos." Você sublinha mentalmente esse número em negrito. Soa como um fato, não como uma estimativa. Quatro meses depois, o índice está 400 pontos longe disso, o estrategista explica que as "condições mudaram" e você fica com a sensação de ter perdido alguma coisa — embora, na verdade, tenha apenas confiado em uma previsão que nunca deveria ter sido tratada como certeza.
Você conhece essa situação de outros contextos também. Um amigo que "acompanha o mercado" vai lhe dizer com absoluta convicção para onde vai o petróleo, o dólar ou o bitcoin. Nunca diz "sob quais condições". E você — sejamos honestos — muitas vezes acredita mais nele do que em seu próprio raciocínio, porque a certeza soa de forma tranquilizadora, mesmo quando é falsa.
Por que um único número mente, mesmo quando dito por alguém inteligente
Previsões do tipo "o índice vai terminar o ano em X pontos" parecem o resultado de uma ciência exata. Na realidade, trata-se de uma estimativa pontual construída sobre dezenas de variáveis — trajetória das taxas de juros, lucros das empresas, geopolítica, confiança do consumidor — cada uma das quais pode se desenvolver de forma diferente do esperado. Historicamente, os preços-alvo anuais dos grandes bancos divergem da realidade em dezenas de pontos percentuais, mesmo em casas renomadas com centenas de analistas. Não é porque sejam incompetentes. É porque o futuro não pode ser comprimido em um único número.
O problema não é que as estimativas existam. O problema é como as tratamos — como se fossem a previsão do tempo para amanhã, em vez de considerá-las como uma entre várias trajetórias possíveis.
Os dados: a incerteza não é um bug, é uma característica do mercado
Vejamos o que o mercado faz no longo prazo, de forma orientativa e sem promessa de que se repetirá da mesma maneira:
- Quedas de 10% ou mais (as chamadas correções) historicamente ocorrem nos índices de ações aproximadamente uma vez a cada ano ou ano e meio — são uma parte normal do ciclo, não uma anomalia.
- Quedas mais profundas de 20% ou mais (mercado de baixa) ocorrem na ordem de uma vez a cada cinco a sete anos, mas o intervalo é muito irregular — às vezes dois em uma década, outras vezes uma calmaria por dez anos.
- Os retornos anuais dos índices de ações historicamente variaram em uma faixa extremamente ampla — anos de crescimento de dois dígitos alternados com anos de queda de dois dígitos, frequentemente sem qualquer aviso visível com antecedência.
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